quarta-feira, 19 de junho de 2013

Pior que o fim do mundo


Saída de Emergência no Fim do Mundo é um conto meu publicado pela Contos do Dragão, da editora Draco, em e-book. É uma história curta, pessimista, sobre impotência e auto-engano. É também sobre escavar o mundo em que se vive e encontrar nele os pequenos tesouros que perdemos sempre. Ou melhor: é uma história sobre não se fazer isso. Para a tarefa, criei um protagonista mesquinho e ignorante (Ignácio) e coloquei diante dele o fim de todas as coisas. Para complicar um pouco mais, há um mistério no início do conto, revelado somente no final: Ignácio parece saber o que vai acontecer e faz uma visita à praça onde seus amigos aposentados vão todos os dias. E, todos eles percebem, há algo de deslocado, algo fajuto nele. Talvez relacionado às cinzas que ele deixou em sua cama.

A motivação inicial para criar a história foi um pensamento que me tomou enquanto colocava minha filha pra dormir: o que poderia ser pior que sobreviver ao fim do tempo e do espaço e ver tudo o que você ama morrer? Saída de Emergência... é a pior resposta que consegui encontrar para essa questão.

O e-book pode ser adquirido na amazon, saraivakobo e iTunes.

Abaixo, um trecho do conto:

A atmosfera se agitou, vazando por rachaduras estratosféricas. Alinhado entre o céu e a terra, um minuto clandestino descompassou os relógios atômicos, cancelando o futuro.
Ignácio viu as pessoas correndo, perdoadas de todo o atraso. Depois os corpos e os automóveis e os cachorros foram sorteados no ar com violência. O barulho da poeira se fragmentando suplantou os berros, as explosões e as caixas de som tocando música em volume alto. Ele viu o céu aceso, as nuvens se incendiando, arco-íris radioativos e tornados de fogo tecendo o impossível no ar. O chão se partiu em bolachas de concreto, canos de esgoto, terras e pedras e raízes, esguichos de rios subterrâneos, cadáveres escondidos. O oceano limoso e barrento chiou no manto de magma desentocado. 
Viu a luz da galáxia, límpida, entre as ranhuras do planeta rachado. Sabia que aqueles sóis já tinham se apagado e ele fitava o atraso patético da luz. 

Nenhum comentário: