quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Epistolário



O Jardim Cosmogônico, meu conto em ebook pela série Contos do Dragão da Editora Draco, é uma fantasia sobre literatura. Em especial, literatura fantástica. A história se passa num mundo sobrecarregado por deuses que andam entre a humanidade tentando arregimentar seguidores que acreditem em suas versões sobre a criação do universo. Nesse lugar saturado de divindades bem reais - e perigosas - a criação de uma autarquia multinacional, a Corporatura - uma ordem de exterminadores de deuses chamados ministros - foi a salvação da sanidade física e psicológica dos humanos durante muitos séculos. Até o dia em que, para lubrificar as engrenagens e aumentar seu poder, a Corporatura proibiu toda e qualquer ficção. 

Nesse mundo a literatura já era complicada antes da proibição: com o excesso de livros sagrados contraditórios escritos por deuses ditadores, o corpo literário de todas as culturas se resumia à epístola. Qualquer coisa escrita deveria ser endereçada ao deus que estivesse no trono. Com o advento da Corporatura, os textos passaram a ser dirigidos todos ao venerando fundador da ordem.

É nesses termos que o conto começa, conjurando a fórmula inicial de qualquer texto escrito naquele mundo (formal, empolada, inflexível).

O conflito da história parte de uma conspiração: a dos misteriosos livreiros peregrinos, que andam por aí distribuindo ficções, esses subversivos. Abaixo, um trecho do conto, que já pode ser adquirido na edição kindle na amazon, na versão epub na livraria saraiva e também no google play, iTunes e Kobo.

O Relicário dava cabo de sua metade no céu quando o contador de histórias chegou, carregado por quatro homens-chacais, seres herdados por nós do reino de terror do deus canibal Matzoh, o primeiro a cair sob o machado do Sumo Autarca para nossa salvação e consolo. Odiei ainda mais o velho a partir daquele momento, mas não tanto quando adivinhei sua real identidade: o ex-ministro Salomão Argeu, responsável por inspirar o alistamento de muitos ministros. De quem se contavam façanhas de tom fabulesco, como a de ter se libertado do cativeiro no reino dos javalis samurais ao prometer-lhes a substituição do atual universo por um composto de símbolos tipográficos imutáveis, desde as bases da matéria, até as construções dos pensamentos.
Veio cadavérico, humílimo, diminuído pela própria fama e pelo vento da noite como um ídolo de pedra desgastado, carregado numa maca de couro de bisão. Pousaram-no no chão com delicadeza, o peito nu de costelas aparentes, a pele queimada, as feições penduradas num crânio fraco. Os olhos fechados como se nunca mais fossem se abrir. Não me admirara que os deuses lhe tivessem atravessado os ossos tão facilmente, transfigurando-o num desobediente resquício de homem. Ponderei que devia ter vivido cem anos. 
Ainda deitado, o velho começou a falar com uma voz de abismo, olhando as estrelas:
— Foi no ano da Lagarta. Eu já havia atravessado quinhentos reinos tecidos na colcha dos territórios conhecidos. Costumo sonhar essa imagem comungada com a gigantesca pele dum rei mamulifante de mil anos de idade que conheci naquele mesmo ano, de cuja carne, formigas de rubi abriam respiradouros para seus países dentro dos ossos do rei. Ele havia me confidenciado que sua pele era a superfície do mundo, e tal como ele ultrapassaria a vida das formigas...
— Fui enviado ao país dos toureiros, a Isbérnia, para averiguar uma denúncia de teofanias acobertadas. Fui recebido na corte da rainha Erítia, que me mostrou orgulhosa seu numeroso rebanho de bois vermelhos, que tinham o couro de ferro oxidado. Na noite labiríntica, ingressei disfarçado nos encontros secretos que ali se executavam e expus um culto tal qual nunca vira antes. Os adoradores não estavam sob a normal e esperada influência mágica das deidades, nem sob controle dos espíritos alucinógenos que chamamos Numes. Cada membro do culto estava em total controle de suas faculdades racionais. Após reuni-los e indagá-los com minha autoridade, esperei pela teopsia que sempre se dá nessas horas — a conjuração da divindade prometendo infernos aos infiéis. Preparei meus expedientes para abater o deus. Espalhei as ervas e os minerais.  Prontifiquei os pergaminhos. Retesei o arco. Nada aconteceu. O sacerdote do culto (reconheci-o de outros verões) riu-se de mim e ordenou minha prisão. “Você não está lidando com um reles deus falso aqui, Salomão!”, rugiu. “Aqui está a Deusa sem nome, causa invisível de todas as coisas”.

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