domingo, 11 de novembro de 2012

Ema no Escuro


A Fantástica Literatura Queer, organizada por Cristina Lasaitis e Rober Pinheiro, chegou ao seu quarto volume. O verde. Com essa capa linda aí em cima. Este volume tem contos de Amanda Marchioreto, Celeste Baumann, Lorena de Carvalho Oliveira, Lucas Simões Zavagli, Maurício Lopes Júnior e Osíris Reis. E tem um conto meu.

O livro já pode ser adquirido na pré-venda, aqui. O lançamento será dia 24 de novembro, no encontro das editoras Tarja, Estronho e Draco no Pier 1327 na Vila Mariana, em São Paulo. Mais informações aqui.

No próximo post falo mais detalhadamente sobre a série e os volumes anteriores.

Abaixo, algumas considerações a respeito do meu conto, depois um trecho.

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O desfecho de um conto de Borges me sugeriu outro. Em A Espera, o protagonista (cujo nome verdadeiro não é Alejandro Villari, mas assim se apresenta), se atocaia num quarto de pensão à espera de seus assassinos. Antes que isso aconteça, Villari sonha o momento derradeiro com algumas variações. De todos os possíveis desenlaces do encontro final entre o atocaiado e seus algozes, o engano me seduziu. (Espero que com essa afirmação não tenha incorrido em spoiler, ou pior, feito desentender todo o resto). Para isso, eu quis que Villari tivesse a determinação e a competência de Emma Zunz, personagem de conto homônimo do mesmo autor. Dessa costura nasceu Ema Villari.

Assim como a variação do desfecho, forjado em engano, a troca de nomes de Alejandro me indicou todo um jogo de falsificações e erros para compor o conto e fazer dele um símbolo do “armário” no qual os homossexuais não assumidos são obrigados a viver. E do “gênero biológico” trocado com o qual pessoas trans nasceram.

Outra questão LGBT me motivou: a visibilidade lésbica. Mulheres homossexuais têm sobre si duas cargas de preconceito. Além da homofobia, o machismo, que às vezes sofrem até mesmo dentro do ativismo. Se tem dúvidas sobre isso, apenas considere que chamar um homem heterossexual de “mulherzinha” ou “maricas” é considerado ofensivo e é o que está na medula do preconceito contra homens gays. Enquanto pedir que alguém “tome jeito de homem” ou dizer que alguém “honrou as calças” está relacionado à honestidade, determinação e lealdade, a mera equiparação com o sexo feminino está relacionada à inconstância, covardia, fraqueza e falta de capacidade.  Machistas homofóbicos (é possível ser machista sem ser homofóbico; o contrário talvez não seja verdadeiro), por enxergarem o ato de ser penetrada(o) como submissão sexual, algumas vezes consideram gays apenas os homens passivos da relação. Pensam que é vergonhoso se “submeter” a outro homem, “como se fosse uma mulher”. Isso gera um estranho caso de homens homofóbicos com taras por humilhar e subjugar sexualmente outros homens achando sinceramente que não são homossexuais ao desejarem isso. E o também esdrúxulo, porém comum, caso de homofobia seletiva contra “aqueles homossexuais exagerados, bichonas, afetados, afeminados”. Quem nunca ouviu elogios a homens gays, porém “machos”, que “não dão pinta” e “falam grosso”?

Voltando às lésbicas, os fatos acima geram questões complexas. Como a grande quantidade de homens homofóbicos que “aprovam” sua existência. Não porque as respeitam e entendem, mas porque as desejam. Uma das fantasias heterossexuais masculinas mais comuns é o ménage com várias mulheres em que elas interagem entre si, além de interagir com o participante masculino. Isso exige que todas elas sejam bissexuais, mas eles sequer pensam nesta questão. Esse fetiche se comporta como uma falsa tolerância, às vezes, e chega a enganar. Mas ela desaba facilmente ao notarmos que só se admite um tipo de lésbica: a bissexual feminina dentro dos padrões industriais de beleza. Nada de bissexuais ou lésbicas trans, “com jeito de homem”, ou fora do peso, da cor e da idade que o patriarcado aprova. Nada de mulheres que queiram se relacionar apenas com mulheres. Elas devem estar dispostas a atender o desejo do interlocutor homem sob pena de voltar ao grupo discriminado ou ficar sujeita ao estupro corretivo. Na indústria pornográfica, por exemplo, até mesmo filmes de temática lésbica são filmados para o público hétero-masculino, fazendo com que lésbicas riam das cenas. Esse mainstream machista, além de excluir todas as outras variedades de lésbicas, transforma o alvo de sua atenção em mero objeto de consumo. Por isso a Visibilidade Lésbica tem para si o dia 29 de agosto.



Pensando nisso tudo resolvi me desafiar a escrever um conto com protagonistas lésbicas sem incorrer no fetiche masculino.

Ema Villari se passa num futuro distópico nada distante (do jeito que está sendo planejado por alguns setores da sociedade, então, de certa forma, utópico para estes). A protagonista é uma roqueira lésbica cinquentona que passou a vida no armário. Após denunciar os crimes de uma megacorporação ela se refugia embaixo de um viaduto paulistano. Um viaduto grande o suficiente para cobrir todo um bairro e de quebra esconder as minorias indesejadas de uma sociedade hegemonicamente reacionária e rodoviarista. Num mundo de enganos e fraudes, porém, outra coisa pode ter encontrado Ema no escuro.

A espera de Ema por seus assassinos e pelo amor de sua vida me foi embalada pela musica White Room, do Cream.

Um retrato falado que rascunhei de Ema

Um trecho do conto:


Embrenharam-se novamente na festa. Sem o disfarce, Ema foi reconhecida. Deu autógrafos. Lhe improvisaram um palco. Reabastecida por um mundo feito de coisas que podiam ser reconhecidas e adivinhadas, cantou com Flávia e fermentou a madrugada. Velhos roqueiros leprosos buscaram os instrumentos em casa e as acompanharam. Veio mais gente e ela soube que cometia um erro, mas persistiu. Fez cover dos Stones, do Heart e do Barão Vermelho. Músicas em nível de domínio público o suficiente para escapar dos polens espiões da máfia dos direitos industriais. As pessoas dançaram e copularam, como se pudessem emprestar sentido às árvores desfolhadas, betumados cadáveres de gravetos suplicantes.

Quando Ema se deu conta, Flávia terminava de se vestir. Espantou o sono e abandonou o cigarro úmido difícil de manter aceso. Saiu do colchão no chão e empurrou o ar suado do quarto. Olhou pela fresta da cortina a estação de trens do outro lado da rua, lá embaixo. O céu escuro era o concreto do mega viaduto que cobria todo o bairro, dando vazão ao trânsito vulcânico da cidade-estado de São Paulo, espartana. Outro bairro, mais correto, brotava lá em cima, guiado por sinais de trânsito atualizados e o céu arejado de helicópteros.

— Não se vista mais de homem. É perigoso. Mesmo aqui — disse Flávia.

— Eu não aguentaria te receber na estação sem um beijo.

— Vem comigo?

— Na.

— Você não pode ficar aqui.

— Eles virão. E vou esperá-los. E você também virá. — Flávia sorriu, as rugas da idade (53) espelhadas no amor de sua vida.

O trem começou a pegar embalo. As mãos acenaram, mediadas pelas janelas remendadas.

[...]Num dia de setembro os assassinos desembarcaram na estação. Ema os reconheceu de imediato, pela janela, sem nunca tê-los visto antes. Logo subiram ao quarto e o arrombaram. Ema apontou a winchester e atirou.

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