sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Caminho até o fogo


A Cantábria, esse paraíso rochoso no norte da Espanha, é ocupado por nossa espécie há pelo menos 16 mil anos. Foi ela quem me inspirou o conto que sai agora na antologia Caminhos Fantásticos, da Jambô editora. Imaginei, dentro daquele labirinto de rochas, uma aldeia neolítica semi-isolada em plena idade média. Em plena reconquista espanhola.

Celtas, visigodos e latinos engrossam o caldo da Aldeia, com uma religião singular, baseada na ignorância das quantidades. Seus membros não devem contar quantos moram na aldeia, quantos frutos colheram, quantos dedos têm nas mãos. 

O livro, organizado por Tiago Lobo, é uma antologia de contos fantásticos passados na nossa idade média, ou em período histórico com características similares em outros mundos. A conhecida fantasia medieval.

Os outros autores são: Alícia Azevedo, Andrio J.R. dos Santos, Antônio Augusto Fonseca Jr., Bruno Schlatter, Christian David, Daniel L. Werneck, Helena Gomes, Khatia Brienza, Marco Rigobelli, Madô Martins, Maria Apparecida S. Coquemala, Marlon Teske e Raphael Draccon.

O prefácio é da Rosana Rios.

Depois da capa, trecho do meu conto. O livro está disponível, por enquanto, na loja da Jambô.




A lenha foi acomodada sobre a rosa de pedra no centro da praça assim que nasceu o sol, logo à vista do prisioneiro. Ele fora transferido para a cela acima para que pudesse observar sua ardente e derradeira cama até o fim do dia. O cárcere ali era mais ventilado, pois tinha uma janela — pela qual entravam enxurradas em dias de chuva por estar ao nível do calçamento. Crianças se divertiam acertando pedras entre as barras. Ele as contou mais de uma vez: sete barras oxidadas. Contou os tijolos das paredes, do teto e do chão e concluiu números mudos. Depois somou os projéteis que entravam, organizando-os. A contagem o emocionava. Numerou oito crianças lá fora, impregnando-lhes dígitos invisíveis. 

Logo estava com o rosto na janela, tentando contabilizar as casas, os edifícios eclesiásticos, as pessoas que lhe cuspiam.

[...] Fechou os olhos e mediu a distância até sua aldeia, escondida por trilhas perigosas nas altíssimas rochas da Cantábria. Tentou mensurar a distância — primeiro em florestas, depois em colinas, por fim contentou-se com um algarismo inconcreto de horizontes. 

Ficou imerso nos caminhos que percorrera a pé antes de ser catequizado e não percebeu que o arrastaram para fora e o amarraram ao poste. No escuro dentro de seu crânio encolheu-se na grandeza dos números que podia imaginar, até que terminaram de rezar e incendiaram seu pensamento, o obrigando a abrir os olhos. Desesperado, tentou entrever em meio às lágrimas a quantidade de lâminas de fogo que grudavam em suas roupas e pele, tentando memorizar algum número que lhe servisse de senha às portas do paraíso.

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom cara, espero comprar logo!