segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Depois do Fim do Mundo


A imagem acima, dessa inusitada notícia de agosto de 2010, foi minha inspiração para escrever o conto "Depois do Mar". O tronco com mais de 60 metros de comprimento e 4 de largura apareceu numa praia em La Push, Washington, EUA, após uma tempestade junto a vários outros "destroços florestais". 

A história se passa numa ilha sem árvores, cujos nativos foram dominados e pastoreados para servirem de alimento aos conquistadores. Conquistadores esses, aliás, que acreditam serem os únicos sobreviventes do planeta vivendo no último pedaço de terra acima das águas enviadas pelo deus cristão para destruir o mundo. A súbita aparição arbórea na praia incita uma revolta na ilha. Sim, poderia ser a Ilha de Páscoa, mas não é. Não sei se posso afirmar que o filme Rapa-Nui também foi fonte de inspiração. O assisti uma única vez, ainda na infância, e dele guardei apenas uma mistura incômoda de sentimentos imprecisos. Fiz questão de escrever o conto sem reassistir ao filme, o que farei assim que possível. Explico: a comparação surgiu mais tarde, já durante a revisão. A ideia em si brotou da fotografia.


O conto estará na antologia Extraneus Vl.3 - Em Nome de Deus, da editora Estronho. O lançamento será em 10 de dezembro, no Pier 1237, em São Paulo, e já pode ser adquirido na pré-venda pela Loja Estronho. (Assim que tiver mais detalhes do evento, posto aqui). Abaixo, a capa da publicação. Os contos passeiam por fantástica variedade de fanatismos religiosos (com recheio sanguinolento, é claro) que a humanidade é capaz de vestir.


O livro tem como convidado o escritor Eric Novello e também contos de Adriana Pueblo, Bethania Amaro, Bruno R. R. Santos, Celly Borges, Daniel Cavalvante, Leonilson Lopes, Lino França Jr., Luciano Alencar, Marcelo Augusto Claro, Monica Rodrigues e Sheila Liz. O prefácio é de Alessandro Reiffer.

Nesse link é possível baixar o excelente conto "O Trevo de Quatro Folhas", de Bethania Amaro, como aperitivo.

Abaixo, um trecho do meu.



Pedro levou Américo com a boca ensanguentada direto ao Templo. A igreja, construída no topo dum morro, fora erguida com a veneranda madeira da nau Canaã, na qual os antepassados escaparam da destruição do mundo, no fim do século dezenove. Doze famílias haviam deixado o Brasil naquele barco por conta da proclamação da República, regime satânico sob o qual não poderiam praticar suas virtudes cristãs, visto que necessitavam dum regente apontado por Deus, não pelo voto, artifício do diabo. Pedro ministrou longo sermão ao filho, depois de alguns socos nas costelas. (...)
— O universo é como o couro do dragão — disse. — Dobra, estica. Ganha e perde escamas. Existe num dia, naufraga no outro. Só a Palavra é real. O mundo é só um meio de se chegar à Palavra de Deus, onde estão todas as coisas.
Emocionado, Américo perguntou ao pai como conhecer a palavra de Deus. Pedro o levou ao altar, onde lhe mostrou a Bíblia. A única Bíblia que ultrapassara o fim dos dias. O garoto tocou-a. Virou uma página. Tentou ler, não conseguiu.
— Está escrita em grego — explicou Pedro.
— Gregu? Como assim?
— É um jeito de falar. A lín-gua dos an-jos — silabou o pai. — Os homens falam brasileiro, Deus fala grego. Assim é desde o início.
Explicou-lhe como os sacerdotes faziam para verter as leis de Deus a partir do  tomo ilegível. Meditavam sobre o texto, oravam por sabedoria, esclarecimento. Então vinha a inspiração e eles transcreviam algum trecho do oráculo. Américo verificou os fragmentos de textos teológicos, contrabandeados juntos com a Bíblia praquele limiar do apocalipse. Então folheou os pergaminhos traduzidos por inspiração, obra de seis gerações de padres. Reconheceu algumas passagens, referidas nos sermões, como a descrição do Cristo andando sobre as águas; a multiplicação do dízimo; a infância eterna dos graciosos coroinhas que esperam os sacerdotes no paraíso; as aparições divinas em fatias de pão torrado.

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