sábado, 15 de outubro de 2011

Bipartido



Com organização de Georgette Silen, a série Histórias Fantásticas pela Cidadela Editorial lançou dois volumes em 2011. Participei do volume 2 com um dos meus primeiros contos escritos com a formal intenção de ingressar no gênero. Muitos dos meus contos anteriores já abordavam o fantástico de uma forma ou outra.

O volume conta também com contos de Andrés Carreiro Fumega, Bruno Wolff, Cesar Alcázar, Claudia Zippin Ferri, Edison Chiafitela, Felipe Pierantoni, Georgette Silen, Gisele G. Garcia, Jossi Borges, Jota Marques, Lino França Jr., Marcelo Bighetti, Mblannco, Renata Cantanhede, Rubens Alves, Sheilla Liz e Vinnie Castro. O prefácio é de Rober Pinheiro, que também é o autor convidado.

A narrativa segue os estilhaços de memória de uma criatura lovecraftiana obrigada a se camuflar na sociedade humana contemporânea após milênios de sono comatoso embalado por pesadelos tão intensos que a enlouqueceram. Sofrendo de um caso sobrenatural de dupla personalidade, o sujeito esconde sua situação assumindo duas identidades e se engajando nos jogos de poder praticados por sua espécie. Enquanto isso, o conflito entre as personalidades chega ao ápice enquanto uma tenta anular a outra.

Tenho outros contos, um rascunho de romance e dois roteiros de HQ que se passam no mesmo cenário. Material inédito curtindo no escuro da gaveta, para acentuar o sabor.

Alguns trechos do conto:


O outro cruza a rua: eu vigio seus movimentos. Vejo em sua sombra a silhueta do enganador — a pantomima da traição. Mão suave segurando o punhal insinuante. O duplo. O meu duplo. Sua perna esquerda manca timidamente. É minha perna, deus me perdoe. Tento ajustá-la ao caminhar da perna direita. Não, não estou no controle do corpo. Nesse momento é o corpo do duplo, esse usurpador. Digo que a perna é minha e vejo que ela se agrega desajeitadamente a essa idéia e ao resto do corpo por um simples remorso de posse, um eco das horas em que exerço o comando. O sol caduca no céu, esquecido de sua velhice. Nossa velhice. O duplo e eu, de certa forma, somos mais velhos que o nome do sol.
[...] Ele entra no pequeno estabelecimento. Sei que ali não se fazem negócios tais quais os que se anunciam na placa. Lá dentro da suposta loja de janelas e portas de metal ele irá encontrar-se com Igor Morteiro — nome falso. Um segurança de ombros largos, olhar fiel e manso, nos revista. Sinto seu bafo de peixe suplicando atrás do cheiro fortíssimo de cerveja, vinho, cachaça com canela. Entrevejo suas guelras inadequadas e inúteis partindo o pescoço curto, guardado nas golas molhadas de sua camisa. Percebo o nojo que sente de mim ao me apalpar, sentindo meu sangue quente.
 [...] O outro nada diz. Ignoro-o. Nos ignoramos a maior parte do tempo, dentro de nosso corpo. Temos vidas distintas e é preciso lembrar disso o tempo que for preciso. Espero com amargura meu turno no comando, tenho saudades de meus traquejos. Tento convencer-me que em tempos remotos, anteriores à humanidade, aquele corpo foi meu instrumento em tempo integral. Rezo para que o outro seja um cuco. Desejo sua morte impossível, desmembrada da minha.

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